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AMAZÔNIA TEM ARTE RUPESTRE SUBMERSA
Por Glória Tega (CEANS)
Com um projeto pioneiro no mundo, cinco sítios arqueológicos foram localizados na região de Porto Trombetas, oeste do estado do Pará, na Floresta Nacional de Saracá-Taqüera/IBAMA, coração da Floresta Amazônica. O projeto “Arqueologia Subaquática Amazônica: prospecção de sítios com gravuras rupestres no Baixo Rio Trombetas e Lagos” foi desenvolvido pelo Centro de Estudos de Arqueologia Náutica e Subaquática da Universidade Estadual de Campinas CEANS/UNICAMP .
Fazendo parte de um projeto maior, intitulado “Salvamento Arqueológico em Porto Trombetas”, coordenado pela arqueóloga Vera Guapindaia, do Museu Paraense Emílio Goeldi com financiamento da Mineração Rio do Norte, esse projeto tem o objetivo de registrar, por meio de decalque em plástico e planimetria, as gravuras rupestres submersas, localizadas nos lagos Mussurá e Moura (rio Trombetas) e localizar e mapear outros possíveis sítios arqueológicos submersos existentes. “O estudo é pioneiro no mundo. Pela primeira vez foram realizados registros arqueológicos sistemáticos subaquáticos de um sítio com arte rupestre”, afirma o arqueólogo do CEANS Gilson Rambelli, que fez um reconhecimento da área em 2003 e retornou com a equipe para realizar essas pesquisas de campo.
Foram descobertos cinco sítios arqueológicos: Ilha do Encantado e Mussurá, submersos no lago Mussurá, Lídia, Congregação e Vista Alegre, submersos no lago Moura. “A maioria dos sítios com gravuras rupestres da Amazônia está sobre rochas que margeiam os rios ou em meio às corredeiras e cachoeiras. Logo, ficam temporariamente submersos no período das cheias, aflorando apenas durante o auge da estiagem”, explica a arqueóloga, especialista em arte rupestre da Amazônia, Edithe Pereira, do Museu Goeldi. Ela afirma também que ainda não se sabe se essa situação era a mesma no momento da elaboração das gravuras. “Isso porque ainda são poucas as datações na Amazônia que permitem situar no tempo a atividade rupestre desenvolvida pelas populações em tempos pré-coloniais. A falta de datações é devida, geralmente, pelo fato dos sítios ficarem submersos durante um período do ano, comprometendo a permanência de evidências materiais que possibilitam a sua datação. A relação entre os sítios arqueológicos com gravuras rupestres e possíveis mudanças climáticas evidenciadas pela variação no nível das águas dos rios amazônicos foi um dos focos de atenção das pesquisas que recentemente ocorreram na região do rio Trombetas”, completa.
Segundo Rambelli, esta etapa, que contou ainda com a participação dos arqueólogos do CEANS Paulo Bava de Camargo e Flávio Calippo e com o assistente de pesquisa do Museu Goeldi, Carlos Augusto Palheta Barbosa, permitiu localizar vestígios arqueológicos em áreas ainda não estudadas pela arqueologia terrestre, e confirmou também que os sulcos nas rochas do sítio Lídia, no lago Moura, não são resultado de ação intencional, mas sim podem ser resultado de ações naturais ou reflexos indiretos da ocupação humana da área, como marcas deixadas em razão da ancoragem de barcos.
A próxima etapa das pesquisas subaquáticas consiste em expandir a investigação, junto com os pesquisadores do Museu Goeldi, dos sítios arqueológicos submersos nos lagos e rios amazônicos, porque além das gravuras estudadas foram encontrados vários artefatos líticos (pedras lascadas) e fragmentos cerâmicos, indicando um potencial considerável, especialmente pois a relação do homem amazônico com água foi e ainda é muito forte, já que é dela que provem seu principal meio de sobrevivência.. “As variações dos níveis das águas propiciaram, do ponto de vista arqueológico, a formação de uma Amazônia submersa, pouco conhecida, e que merece toda atenção dos pesquisadores”, conclui Rambelli.
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