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SIMPÓSIO TERMINA COM FORMALIZAÇÃO DE PROJETO

Por Glória Tega (CEANS)

O “I Simpósio Internacional - Arqueologia Marítima nas Américas: ocupações litorâneas, barcos e navios, portos e áreas portuárias”, realizado entre 24 e 26 de outubro, terminou com a assinatura do convenio entre a Universidade Federal da Bahia e a Prefeitura Municipal de Itaparica para a implantação do primeiro centro de pesquisas brasileiro especializado em arqueologia e etnografia do mar, o ARCHEMAR.

Com sede em Itaparica, o projeto pretende realizar o estudo sistemático, a preservação e a divulgação do patrimônio cultural subaquático correspondente aos sítios arqueológicos de naufrágios, de áreas portuárias, santuários submersos e os de ocupações litorâneas na Baia de Todos os Santos. “A idéia da realização do simpósio era também impulsionar o ARCHEMAR. Agora há muito o que fazer”, afirma o professor Carlos Caroso, Diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBA.

Nos três dias de Simpósio, foram realizadas diversas mesas redondas e várias seções de comunicações sempre tratando de assuntos ligados à Arqueologia Subaquática, patrimônio cultural, maritimidade, entre outros.

Participaram desse Simpósio mais de cem pessoas de 4 continentes, África, América Europa e Oceania, representados por, ao menos, uma pessoa de 7 países, Senegal, Portugal, França, México Colômbia, Austrália, Brasil, não esquecendo o Caribe, representado pelas ilhas Caimãs. “Uma participação excepcional”, destacou a arqueóloga Pilar Luna Erreguerena, do México, na conferencia que fechou o Simpósio.

Após o Simpósio, foi realizada a Reunião Anual do Comitê Internacional sobre o Patrimônio Cultural Subaquático (ICUCH /ICOMOS), órgão consultivo da UNESCO para o tema, pela primeira vez no Brasil. O resultado dessa reunião para o Brasil foi a “Carta de Itaparica”. No documento, o Comitê sugeriu uma série de ações necessárias caso se queira conservar o patrimônio submerso e gerar conhecimento científico a partir dele no Brasil.

Projetos do CEANS Projetos do CEANS
A assinatura do convênio encerrou o Simpósio. Da esquerda para a direita: David Nutley, Valfredo Cezar, Cláudio Neves, Naomar Almeida Filho, Gilson Rambelli e Sérgio Barradas Carneiro. Carlos Caroso apresentando o projeto ARCHEMAR – Itaparica.

Acompanhe o que ocorreu dia-a-dia no Simpósio:

Primeiro dia

A abertura do “I Simpósio Internacional - Arqueologia Marítima nas Américas: ocupações litorâneas, barcos e navios, portos e áreas portuárias” foi feita por Gilson Rambelli, presidente da comissão científica do Simpósio e arqueólogo do Centro de Estudos de Arqueologia Náutica e Subaquática da Universidade Estadual de Campinas – CEANS/UNICAMP, seguida pela conferência do arqueólogo marítimo australiano David Nutley: “Arqueologia Marítima na Austrália”, onde apresentou detalhes admiráveis dessa disciplina na proteção e gestão dos sítios arqueológicos submersos australianos e a importância do envolvimento que esses estudos devem ter com a sociedade. “Buscamos sempre um envolvimento com as comunidades. Os projetos de arqueologia tentam ter nas equipes pessoas comuns, da comunidade, como dentistas, instrutores de mergulho, entre outros”, explica. O pesquisador é do New South Wales Heritage Office, em Sydney, onde, em 1988, estabeleceu o Programa do Patrimônio Cultural Subaquático em seu país. Ele tem mais de 20 anos de experiência na gestão do patrimônio marítimo, incluindo curadoria (Australian National Maritime Museum, Sydney) e pesquisa. Além disso, é Secretário Comitê Internacional sobre o Patrimônio Cultural Subaquático do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICUCH /ICOMOS), órgão consultivo da UNESCO sobre o Patrimônio cultural subaquático.

Ainda pela manhã, sob coordenação de Gilson Rambelli, na mesa redonda Ocupações litorâneas pré-coloniais: contribuição da Arqueologia para os estudos das ocupações coloniais ao longo da costa e dos rios das Américas, apresentaram-se José Ladim da Universidade Federal da Bahia (MAE/UFBA), Tânia Andrade e Lima (Departamento de Antropologia do Museu Nacional), Flavio Calippo, doutorando do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP e pesquisador do CEANS/UNICAMP, e Denise Schaan, da Universidade Federal do Pará.

Após o almoço, ocorreu a mesa redonda “Ocupações litorâneas coloniais: contribuição da Arqueologia Subaquática para os estudos das ocupações coloniais ao longo da costa e dos rios das Américas”. Nesta mesa apresentaram-se Ibrahima Thiaw, arqueólogo do Senegal, que realiza suas pesquisas na Ilha Gorée, Senegal, focando nos padrões de ocupação, comércio, hábitos alimentares e a escravidão transatlântica e local. Outra participante da mesa foi Pilar Luna Erreguerena, pioneira na Arqueologia Subaquática mexicana, uma das mais experientes arqueólogas especialista Arqueologia Subaquática do mundo e responsável pela criação, em 1980, no México, do Departamento de Arqueologia Subaquática do Instituto Nacional de Antropologia e Historia – INAH, diretora dele desde então.

Na seqüência, apresentaram-se, sob coordenação de José Maria Landim Domingues (IGEO/UFBA), Carlos Etchevarne (PPGA-UFBA), Roberto Ayron da Silva, Carlos Costa (Pesquisador Associado MAE/UFBA) e Luydy Abraham Fernandes (UFRB, Pesquisador Associado MAE/UFBA) e Fabiana Comerlato (Pesquisadora Associada MAE/UFBA), na mesa “Arqueologia litorânea no Nordeste brasileiro”.

Para concluir este primeiro dia, Francisco Alves ministrou a primeira parte do workshop “Barcos e navios, panoramas e sínteses”. O arqueólogo português é um dos mais experientes em Arqueologia Subaquática do mundo; foi, durante 16 anos, diretor do Museu Nacional de Arqueologia de Portugal, participou da organização do setor de Arqueologia do Patrimônio do Instituto Português do Patrimônio Cultural (IPPC); montou a primeira campanha portuguesa de arqueologia subaquática nos destroços do L’occean, na praia da Salema, sul de Portugal, em 1997; participou da criação do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e subaquática, o CNANS, e da elaboração do texto da Convenção da Unesco para a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático e é membro efetivo do ICUCH /ICOMOS.

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Francisco Alves ministrando o workshop.


Segundo dia

No segundo dia do Simpósio, como parte da mesa redonda “Portos e Áreas Portuárias”, coordenada por Marcos Albuquerque da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o destaque ficou para a apresentação “On the Trail of Maritime Heritage Management in the Cayman Islands” da arqueóloga americana Margaret Leshikar-Denton, que trabalha nas Ilhas Caimãs, no Caribe, e também é membro efetivo do ICUCH/ICOMOS. A pesquisadora destacou as ações de difusão cultural, educação patrimonial, gestão e conservação do patrimônio cultural local. Na mesma mesa, apresentaram-se Paulo F. Bava de Camargo, Leandro Domingues Duran, ambos doutorandos do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP e membros do CEANS/UNICAMP, e Suely Cristina Albuquerque Luna da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Na segunda mesa do dia “Barcos e Navios”, o arqueólogo português Francisco Alves, professor da Universidade Nova de Lisboa, responsável pelo DANS/IGESPAR, e do ICUCH/ICOMOS, apresentou o trabalho “As pirogas e as fronteiras da etno-arqueologia náutica”, feito em parceira com Eric Rieth, do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS - França), que não pôde comparecer. A mesa contou ainda com apresentações de Carlos Rios (Oficial da Reserva Remunerada da Marinha do Brasil) e Aleixo Belov (Belov Engenharia), que falou sobre construção naval na Bahia.

Após o almoço, o simpósio teve continuidade com a mesa “Relatos de Pesquisas em Arqueologia Marítima”, coordenada por Tânia Andrade e Lima (Departamento de antropologia Museu Nacional/UFRJ), com as apresentações dos colombianos Catalina García Chaves e Carlos del Cairo Hurtado, ambos da Fundación Terra Firme, que apresentaram “ Culturas marítimas y apropiación local de los recursos arqueológicos subacuáticos una propuesta de patrimonialización en Cartagena de Indias, Colômbia”. Além deles, apresentaram-se Ricardo Guimarães (Mestrando MAE/USP e oficial da Marinha do Brasil), e Rodrigo Torres (LEPAN/FURG e Museu Náutico).

A última mesa do dia “Documentação, Conservação e Preservação do Patrimônio Cultural Subaquático”, coordenada por Carlos Etchevarne (MAE/UFBA) teve a participação de Beatriz Bandeira (Pesquisadora do Serviço Geral de Documentação da Marinha), Reuben Belo Costa (Museu Náutico da Bahia), Bruno Sanchez Ranzani da Silva (graduando UNICAMP) e Silvio de Angelis Júnior (Fundação Mar).

O segundo dia do Simpósio também foi encerrado com o workshop “Barcos e navios, panoramas e sínteses”, ministrado por Francisco Alves.

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Leandro Duran apresentando-se. Ao fundo, Ricardo Guimarães, Paulo Bava de Camargo, Denise Schaan e Gilson Rambelli.

Terceiro dia

O terceiro e último dia de Simpósio foi aberto com as exposições referentes ao projeto ARCHEMAR Itaparica e foi coordenada por Eliana Dumêt, Secretária de Turismo do Município de Itaparica. Na mesa apresentaram-se Maria Hilda Paraíso (UFBA), Gilson Rambelli (CEANS/UNICAMP, ICUCH/ICOMOS), Carlos Caroso (MAE/UFBA), Josemar Rodrigues de Souza (ACSO/UNEB) e Marco Antônio Costa Simões (ACSO/UNEB).
Em seguida, a última mesa redonda do evento “Sistemas de Estratégias de Defesa Coloniais: Arquitetura e Arqueologia de Fortalezas”, coordenada por Reuben Belo Costa (Museu Náutico da Bahia) contou com apresentações de Mario Mendonça de Oliveira (UFBA), Marcos Albuquerque (UFPE), Fernando Luiz Tavares Marques (MPEG) e Anésio Ferreira Leite (ABRAF).

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Josemar Rodrigues de Souza, Gilson Rambelli, Maria Hilda Paraíso, Carlos Caroso, Marco Antônio Costa Simões e Eliana Dumêt.

A tarde foi reservada para visitas aos sítios arqueológicos Forte da Gamboa e Armação de Pesca de Baleias, ambos em Itaparica.

A conferencia de encerramento foi proferida pela arqueóloga mexicana Pilar Luna Erreguerena: “Os desafios do patrimônio cultural subaquático”. Pilar Luna trabalhou com George Basss, pioneiro da Arqueologia Subaquática no mundo, na Turquia, em 1979, representou o México na ocasião da elaboração do texto da Convenção da Unesco para a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático. É membro efetivo do ICUCH /ICOMOS, desde quando foi criado, em 1991.

No final de sua apresentação, a arqueóloga destacou a importância de um evento desse porte para a preservação do patrimônio cultural subaquático brasileiro, parabenizou a organização do evento, destacando a atuação da equipe da Secretária de turismo de Itaparica, Eliana Dumêt, e o trabalho e pioneirismo dos arqueólogos do CEANS/UNICAMP “Quero aproveitar a oportunidade para felicitar os visionários do patrimônio cultural subaquático do Brasil, que se empenham numa luta para proteger, pesquisar e difundir este valioso e insubstituível legado da humanidade, encabeçados por Gilson Rambelli e sua equipe, Flávio Calippo, Paulo Bava de Camargo, Leandro Duran e Glória Tega, como respaldo do professor Pedro Paulo Funari e todos os colaboradores e autoridades que entenderam este enorme desafio e imensa e nobre tarefa”. Além disso, Pilar mostrou confiança quanto ao trabalho que será desenvolvido pelo projeto ARCHEMAR – Itaparica. “Quero cumprimentar o Dr Carlos Caroso do MAE/UFBA e demais autoridades envolvidas na criação desse centro de pesquisas, pois, estou segura, por tudo que vi aqui, que será um centro exemplar não só para o Brasil, mas também para todo o mundo”, disse.

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Pilar Luna na conferencia de encerramento.  

Por último, Pilar destacou a necessidade da mudança da atual lei brasileira que trata do patrimônio cultural subaquático. “Destaco, ainda, a necessidade de seguir lutando para mudar a Lei que permite os caçadores de tesouros, os piratas modernos, a intervir e explorar, com fins comerciais e privados, o que é de todos e tem um valor muito superior ao valor do dinheiro. Quando esta lei mudar, o patrimônio cultural subaquático do Brasil estará muito bem protegido, podendo, dessa maneira, ser ratificada pelo país a Convenção da Unesco para a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático”, concluiu a arqueóloga.

O “I Simpósio Internacional - Arqueologia Marítima nas Américas: ocupações litorâneas, barcos e navios, portos e áreas portuárias” foi encerrado com a assinatura de Convênio entre a UFBA e Prefeitura Municipal de Itaparica. Estiveram presentes na mesa o Magnífico Reitor da Universidade Federal da Bahia, Naomar Almeida Filho; o Prefeito Municipal de Itaparica Cláudio Neves; o Vice-Prefeito de Itaparica Valfredo Cezar, David Nutley, Secretário do ICUCH, Sérgio Barradas Carneiro, Deputado Federal pela Bahia, e Gilson Rambelli, do CEANS/UNICAMP.

Assinaram como testemunhas Gilson Rambelli e o deputado Sérgio Barradas Carneiro (PT-BA), que, em seu discurso, comprometeu-se a contribuir com a aprovação do Projeto de Lei 7566, que tramita no Congresso Nacional desde novembro de 2006. A proposição representa uma mudança no tratamento que o patrimônio cultural subaquático vinha tendo no Brasil, como “coisa ou bem submerso”. Ao definir esse patrimônio arqueológico como todos os vestígios da existência humana que se encontram submersos, ou na interface, iguala-o ao patrimônio arqueológico que está em superfície, passando ao Ministério da Cultura a tarefa de gestão.

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Margaret Leshikar-Denton, Pilar luna, Denise Schaan e David Nutley. Os arqueólogos do CEANS: Gilson Rambelli, Leandro Duran, Flávio Calippo e Paulo Bava de Camargo.


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Da esquerda para direita: Leandro Duran, David Nutley, Gilson Rambelli, Naomar Almeida Filho e Paulo Bava de Camargo. Carlos Caroso, Margaret Leshikar-Denton, Pilar Luna, Francisco Alves, Catalina García Chaves, Carlos del Cairo Hurtado e Flávio Calippo.


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